{"id":131598,"date":"2015-03-31T17:39:42","date_gmt":"2015-03-31T20:39:42","guid":{"rendered":"https:\/\/jundiai.sp.gov.br\/noticias\/?p=131598"},"modified":"2016-11-04T11:25:38","modified_gmt":"2016-11-04T13:25:38","slug":"porque-eu-abraco-a-ponte-torta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jundiai.sp.gov.br\/noticias\/2015\/03\/31\/porque-eu-abraco-a-ponte-torta\/","title":{"rendered":"Porque eu abra\u00e7o a Ponte Torta"},"content":{"rendered":"<p>Minha casa estava localizada dentro do quadril\u00e1tero determinado por um lado pela rua Vig\u00e1rio, por outro lado a rua Jose do Patroc\u00ednio. O Guapeva margeava todo o fundo do meu quintal e tamb\u00e9m aquele espa\u00e7o gramado anexo a ele, chamado de Lenhadora, onde brinc\u00e1vamos quando crian\u00e7as. Passando a f\u00e1brica de bebidas e pulando mais dois ou tr\u00eas quintais j\u00e1 est\u00e1vamos na Ponte Torta.<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia chegou de mudan\u00e7a, vindo do Espirito Santo do Pinhal, nos idos de 1929, e sendo meu pai, funcion\u00e1rio da antiga F\u00e1brica de Tecidos Milani (pr\u00e9dio onde hoje abriga a Receita Federal) a ind\u00fastria fazia quest\u00e3o de ter seus empregados todos pela redondeza da f\u00e1brica. Dessa forma alugou uma s\u00e9rie de casas, principalmente as de propriedade do doutor Francisco de Queiros Teles, das quais a minha era a casa de n\u00famero 4, da Vig\u00e1rio J.J. Rodrigues, 307. No Beco da Lenhadora.<\/p>\n<p>O nome Lenhadora, contava minha m\u00e3e, era porque naquele espa\u00e7o ficavam armazenadas as lenhas e madeiras que aguardavam para atravessar o Guapeva, trazidas desde Esta\u00e7\u00e3o Ferrovi\u00e1ria, com destino ao centro da cidade que j\u00e1 se fazia pujante. Depois eram transportadas por um bonde, (pertencente \u00e0 Cia Jundiahyana de Trens) puxado por tra\u00e7\u00e3o animal e que tamb\u00e9m levava passageiros desde a Esta\u00e7\u00e3o Ferrovi\u00e1ria atrav\u00e9s da Ponte Torta, que foi inaugurada por volta de 1888, grande marco criado para colaborar com o progresso da cidade. Por conta disso aquele espa\u00e7o que ganhou o nome de Beco da Lenhadora .<\/p>\n<p>Desde a chegada da minha fam\u00edlia, meu quintal recebeu em suas terras, variados tipos de cultivo. Meus familiares vieram da ro\u00e7a, acostumados com a lida da terra, trouxeram consigo variadas esp\u00e9cies de sementes e chegaram a plantar o pr\u00f3prio arroz que consumiam, no meu quintal e na \u00e1rea da Lenhadora. Como o rio ainda n\u00e3o era canalizado as \u00e1guas invadiam o terreno al\u00e9m das suas margens e formavam uma esp\u00e9cie de \u201cprainha\u201d, muito propicio para o plantio de arroz que requer esse \u201cbrejo\u201d.<\/p>\n<p>As \u00e1guas, nesses anos 30\/40 , n\u00e3o eram polu\u00eddas. Prova disso \u00e9 que meus irm\u00e3os brincavam e nadavam e at\u00e9 mesmo pescavam naquelas \u00e1guas, sobre pontes de madeira constru\u00eddas rusticamente. Um pouco mais al\u00e9m, j\u00e1 no in\u00edcio do atual Vianelo, os animais do quartel localizado no centro de Jundiai vinham beber e se banhar nessas \u00e1guas, que tamb\u00e9m invadiam grande parte do que \u00e9 hoje esse bairro. Contavam que a Prefeitura oferecia terra de gra\u00e7a ali para quem cercasse, cuidasse e ficasse respons\u00e1vel por seu terreno.<\/p>\n<p>Falava das terras do meu quintal , que na minha inf\u00e2ncia tinha frut\u00edferas variadas, al\u00e9m de uma bem cuidada horta e alguns animaizinhos. Todos os olhos aguardavam as primeiras goiabas vermelhas da temporada, os pessegueiros floriam a seu tempo, mangueiras, p\u00earas d`agua, amoreira, abacateiro, etc.<\/p>\n<p>Na verdade t\u00ednhamos tamb\u00e9m duas caixas com abelhas que nos forneciam o puro mel, colocadas na beira do rio , ao lado de uma touceira de cana-de-a\u00e7\u00facar que a moenda transformava na corriqueira garapa que as crian\u00e7as tanto apreciavam . De vez em quando rondava por ali uma cobra vinda do Guapeva e os que conseguissem v\u00ea-la, principalmente as crian\u00e7as, aumentavam e muito o seu tamanho. Um tosco e mal fechado galinheiro, abrigava o galo, senhor de todas as poedeiras, que cantou em todas as manh\u00e3s de que posso me lembrar. E nas festas de fim de ano habitava por ali um peru, que logo mais iria compor a nossa mesa. Pobre e t\u00e3o saboroso peru!<\/p>\n<p>Absorta em meus pensamentos, no alto da minha \u00e1rvore favorita, a escolhida por mim , uma portentosa amoreira, fazia dela o meu \u201cFarol de Observa\u00e7\u00e3o\u201d , pela ampla vis\u00e3o que me proporcionava em todas as dire\u00e7\u00f5es para al\u00e9m do meu quintal. Sigo nessa aventura!<\/p>\n<p>Abaixo os olhos e posso ver minha querida m\u00e3ezinha, mulher de apar\u00eancia fr\u00e1gil, alma vigorosa e cora\u00e7\u00e3o doce e farto. Posso v\u00ea-la, corpo arcado pelas agruras dos tempos de enxada em que deixara o suor nos cafezais do patr\u00e3o. Ainda assim, pegava de t\u00e3o familiar instrumento, sua velha e conhecida enxada, e carpinava toda aquela terra do meu quintal, cuidando da sua horta que nos abastecia com tenras alfaces, adocicados piment\u00f5es, cenouras e rabanetes crocantes, alho cebola, cheiro verde, etc., al\u00e9m dos v\u00e1rios tipos de tempero e ervas medicinais. Tudo cuidado com muito carinho.<\/p>\n<p>Meu quintal tinha um port\u00e3o voltado para o espa\u00e7o da Lenhadora , onde as crian\u00e7as brincavam protegidas pelos limites do Beco, naquela fase em que buscavam conv\u00edvio social, para al\u00e9m dos seus quintais. Era uma esp\u00e9cie de clube para nos crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Agora, em p\u00e9 no galho mais alto da minha arvore, posso observar a segunda entrada do Beco, no 590 da Jose do Patroc\u00ednio. Logo a esquerda, um r\u00fastico barrac\u00e3o de pau-a-pique, a estrutura do telhado formada por eucaliptos bem postados e ch\u00e3o de terra batida. Era onde moravam a dona Maria do Firmino e sua prole, que era numerosa, n\u00e3o me recordo quantos eram, nem tampouco o nome de todos eles. Fato \u00e9, que vieram de Minas Gerais e se instalaram nesse espa\u00e7o, que estendia at\u00e9 margear o Guapeva, exatamente no ret\u00e2ngulo que abra\u00e7a a grande figueira plantada por uma vizinha nossa, a dona Gema, creio no in\u00edcio dos anos 60.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia da dona Maria do Firmino conservava um terreiro ao lado da casa sempre muito bem varrido, onde ciscavam galinhas soltas, que criavam para vender seus ovos, e elas pr\u00f3prias quando procuradas.<\/p>\n<p>Alguns porquinhos no chiqueiro, creio que para consumo pr\u00f3prio. Afinal a fam\u00edlia era numerosa. Abaixo do terreiro at\u00e9 encontra o rio, uma grande e variada horta. Na porta de entrada do barrac\u00e3o um Papagaio Louro, n\u00e3o sei se de bico dourado, mas t\u00e3o duro que quase arrancou a ponta do meu indicador quando eu insistia em \u201cd\u00e1-o-p\u00e9-louro\u201d ao tagarela papagaio, toda vez que l\u00e1 ia buscando algo que pudesse faltar na horta de minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que nunca mais conversei com o tal papagaio.<\/p>\n<p>O que nunca deixei de fazer, quando l\u00e1 ia, era pedir licen\u00e7a para beber \u00e1gua que se encontrava no canto oposto da entrada da sala, num pote de barro de apar\u00eancia fresquinha e colocado sobre uma mesinha simples de madeira, coberto por uma toalha de saco, bem alvejado, com barrado de croch\u00ea \u00e0 sua volta. Eu atravessava a sala arejada e fresca de ch\u00e3o de terra batida, t\u00e3o limpo que mais parecia um carpete de maceis, e meus p\u00e9s pisavam felizes at\u00e9 chegar a agua que era bebida numa canjiquinha de alum\u00ednio reluzente. Foi a agua mais fresca e saborosa que eu pude beber na minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Um certo dia, as crian\u00e7as j\u00e1 mais crescidas e dona Maria do Firmino se muda para uma casa melhor, cansada que estava da lida para criar os filhos e nos deixa o Barrac\u00e3o por heran\u00e7a, que inocentemente n\u00e3o soubemos conservar. Bem poderia ter sido um Museu Caboclo, bem no centro da cidade, junto \u00e0 Ponte Torta&#8230;<\/p>\n<p>Assim, nossas festas juninas que haviam come\u00e7ado no gramado da Lenhadora, migraram para o Barrac\u00e3o, muito bem adequado, que se transformava num verdadeiro arrai\u00e1 colorido pelas bandeirinhas de todas as cores, grandes arcos de bambu formavam agrad\u00e1veis caramanch\u00f5es e as festas faziam um sucesso inesperado e grandioso atraindo n\u00e3o s\u00f3 as fam\u00edlias do Beco, mas vizinhos de toda redondeza, inclusive do Vianelo.<\/p>\n<p>A barraquinha de quent\u00e3o era organizada por tr\u00eas ou quatro senhoras que formavam uma equipe capaz de preparar o melhor quent\u00e3o. E minha m\u00e3e era uma delas. Os meninos mais velhos eram respons\u00e1veis por trazer os bambus e fazer os arcos dos caramanch\u00f5es. A ilumina\u00e7\u00e3o e o som ficava a cargo de dois ou tr\u00eas vizinhos eletricistas. A concorrida barraquinha de guloseimas, cujos pratos t\u00edpicos ficavam a cargo de todos os vizinhos e caprichavam bastante na variedade e sabor.<\/p>\n<p>A grande fogueira parecia uma torre, cujo fogo varava a noite toda, at\u00e9 o dia clarear! O \u201cVarduca Fogueteiro\u201d era o encarregado de vender as maravilhas que alucinavam as crian\u00e7as: bal\u00f5es de cinc\u00e3o, buscap\u00e9s, traques de riscar na parede, bombinhas menores at\u00e9 as de grande estrondo que os meninos soltavam nas \u00e1guas do rio, os roj\u00f5es de vara, vulc\u00f5es coloridos, as chuvas de prata e at\u00e9 as inocentes bombinhas de estalar.<\/p>\n<p>E assim com essas lembran\u00e7as gostosas guardadas na mente, saboreando os frutos no alto da minha amoreira preferida, festa ap\u00f4s festa, a m\u00fasica tocando, todos dan\u00e7ando iluminados pelo clar\u00e3o da grande fogueira , o tempo passando e somos adolescentes , onde os sentimentos de amizade e bem querer se misturam entre aqueles que brincaram, brigaram e viveram naquele peda\u00e7o de terra : o Beco.<\/p>\n<p>Muitos foram os personagens que ali viveram, ou fizeram parte desse ch\u00e3o t\u00e3o especial, ao longo de toda uma vida.<\/p>\n<p>Por ali passaram vendedores de meias de seda, mascates de roupas e quinquilharias, padeiros, leiteiros, afiadores de tesoura e faca, compradores de ferro velho, o cego dos espanadores, vendedor de geleia real, o homem do realejo com seu periquitinho da sorte, o cobrador de seguros de vida e tantos outros e n\u00e3o podiam faltar os pedintes, fregueses certos de todas as semanas.<\/p>\n<p>Um dia qualquer se desce a Vigario no tr\u00e2nsito tresloucado de hoje e o cora\u00e7\u00e3o se aperta e palpita. De repente o Beco j\u00e1 n\u00e3o existe mais. A minha casa 4 do meu querido quintal de tantas aventuras e todas as casas daquele quadril\u00e1tero, foram demolidas. Assim as \u00faltimas pessoas da minha fam\u00edlia deixaram aquele lugar, depois de 80 anos estabelecidos ali.<\/p>\n<p>Dizem que ser\u00e1 um jardim. O Parque Guapeva. Que seja! E em cada flor um morador, um frequentador do meu Beco!<\/p>\n<p>Preservou-se, para minha alegria, a grande figueira, no centro do terreiro da dona Maria do Firmino, local onde queimou a fogueira de tantas e saudosas festas juninas. E tamb\u00e9m a querida Ponte Torta, paisagem presente e comum em todos os dias da vida inteira. Ponte Torta, monumento solit\u00e1rio, guardi\u00e3o das lembran\u00e7as dos que viveram no seu entorno, assim como eu!<\/p>\n<p><strong>EU ABRA\u00c7O A PONTE<\/strong><br \/>\n<em>(Gra\u00e7a Bernardino, 03\/03\/2015)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha casa estava localizada dentro do quadril\u00e1tero determinado por um lado pela rua Vig\u00e1rio, por outro lado a rua Jose do Patroc\u00ednio. O Guapeva margeava todo o fundo do meu quintal e tamb\u00e9m aquele espa\u00e7o gramado anexo a ele, chamado de Lenhadora, onde brinc\u00e1vamos quando crian\u00e7as. 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