Ponte Torta marca memória viva de Jundiaí, diz especialista

Publicada em 16/03/2015 às 15:23

Um dos nomes mais reconhecidos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Victor Hugo Mori, afirmou na sexta-feira (13) que o projeto implementado na Ponte Torta nos últimos seis meses consolidou-a como um monumento ligado à memória da cidade. Ele foi o convidado especial da palestra de encerramento do ciclo social de palestras do projeto, que deve ter sua parte física entregue em abril.

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“Considero essa ligação em arco como um dos mais importantes legados deixados pela civilização romana, hoje vistos em construções por quase todo o mundo. Assim ocorreu com os aquedutos ou as abóbodas das basílicas, inicialmente fóruns e depois igrejas no período medieval. Mas também com muitos monumentos, que são construções feitas não para uso, mas para rememorar. Exemplos disso são os arcos do triunfo, como do imperador Trajano e retomados centenas de anos depois por Napoleão”, afirmou durante o evento.

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Hugo Mori comparou Ponte Torta com "arco do triunfo involuntário" e destaca papel da comunidade

Hugo Mori comparou Ponte Torta com “arco do triunfo involuntário” e destaca papel da comunidade

Para ele, o principal elemento estético da ponte do século XIX em Jundiaí é o seu arco de tijolos. Ao contrário de construções inicialmente para essa função, muitas obras, como casarões, engenhos ou prédios, acabam se tornando monumentos involuntários de uma época e esse é o caso em foco.

O projeto, implementado pela Prefeitura de Jundiaí no trabalho do Estúdio Sarasá, acabou gerando o que se chama de “atribuição de valor” ao monumento pela reunião de dados históricos, pela participação de moradores e pela existência de movimentos de fundo afetivo em relação a uma obra. Desde o lançamento, em setembro, foram dezenas de etapas e ações dentro das fases definidas entendimento, pertencimento e empoderamento.

“É um trabalho intenso e até emocionante pelo valor que a Ponte Torta tem para grande parte dos jundiaienses e pelo método com que fomos descobrindo cada vez mais sentido em sua existência e na própria história da cidade”, afirmou a secretária de Planejamento e Meio Ambiente, Daniela da Câmara Sutti, destacando a participação da equipe técnica de diversos setores do governo e da sociedade.

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O especialista Toninho Sarasá destacou o trabalho de conservação realizado na estrutura da ponte. A partir de um diagnóstico sobre as “patologias” desse patrimônio histórico, desde questões estruturais até biológicas, como peças faltantes, sujidades de insetos ou pássaros e muitas outras, o trabalho da pesquisa histórica e depoimentos de moradores mostrou que os tijolos haviam sido feitos entre 1886 e 1888 em uma olaria da Colônia.

“Esses tijolos artesanais são uma técnica em vias de desaparecimento, mas descobrimos que ainda temos isso na região. A diferença de tonalidade entre os tijolos originais e os poucos que foram repostos pode ser muito sutil para o leigo, mas é visível para o técnico. O trabalho com a argamassa de cal, e o próprio uso da água de cal para aumentar a resistência do material, teve detalhes renascentistas e outros que aprendemos com a própria Ponte Torta”, explicou sobre o elemento-símbolo do projeto.

Praça e mirante
A Ponte Torta, que foi coberta com um laço de presente para o aniversário de Jundiaí e tema de um bloco de rua no período de Carnaval, passa agora pelos últimos cuidados físicos antes de receber os trabalhos de um piso na praça a que ficou restrita depois de obras viárias em seu entorno e também de um belvedere (espécie de mirante) no início do morro de acesso à Esplanada do Monte Castelo, que deve permitir um vislumbre de seu contexto original quando as avenidas ainda não existiam e sua ligação com o centro histórico era feita pelo caminho depois conhecido como rua (ou avenida) Torta, atual Paula Penteado.

Foto de 1956 do major Alípio Gama da Silva, do acervo do professor Maurício Ferreira (Sebo Jundiaí)

Foto de 1956 do major Alípio Gama da Silva, do acervo do professor Maurício Ferreira (Sebo Jundiaí)

Antes disso, nesta quinta-feira (19), a equipe do projeto realiza palestras para duas turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), da Secretaria de Educação, a convite da educadora Ciça Seron. Ainda estão sendo discutidas a realização de uma nova oportunidade de visita técnica aos trabalhos da ponte e também uma outra caminhada simbólica, além de uma publicação ainda neste ano em estudo na Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente.

“O trabalho envolveu um aprendizado de cooperação muito grande para todos os setores”, comentou a diretora do Museu da Companhia Paulista e do Conselho Municipal do Patrimônio (Compac), Maria Angélica Ribeiro, lembrando do envolvimento da Secretaria de Cultura, do Museu Histórico, da Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Turismo e diversas outras áreas.

Para a coordenadora de educação ambiental da Secretaria de Educação, Claudete Formis, a impressão é a mesma. “O impacto na cidade foi significativo. Na implantação em andamento de um grande projeto de educação patrimonial, a pergunta mais ouvida de alunos, pais e professores é se então vamos falar da Ponte Torta”, explicou.

Impacto
A professora aposentada Maria Emília Jubran Picciano, que morava ao lado da ponte durante a infância, levou o lado afetivo com um poema chamado Gotas do Passado onde afirma que “no fundo do quintal/o rio, é torta a ponte/no centro da cidade/é luminosa a fonte” ou que “chegar lá no Siqueira/Subir o Escadão/No palco, quando é festa/o riso, a emoção”.

E o evento lembrou também uma frase do recém-lançado livro de Sueli Ferreira do Bem pela Editora da Universidade de São Paulo, com suas 376 páginas, chamado “Conversa de Patrimônio em Jundiaí”. O trabalho, em certo ponto destacado pelo projeto, diz que recomponha-se a ponte sobre o histórico rio, restitua-se a passagem sobre os tempos numa atitude de reconhecimento dos valores da cidade em sua continuidade histórica.

O morador Luciano Rossi, que trouxe para o projeto o depoimento sobre seu pai Lúcio Bananeiro que usou a ponte para passar carroças de frutas rumo ao centro histórico no início do século XX, afirmou que levar o neto para conhecer aquele monumento de tantas lembranças teve um grande significado para ele. “Mas só depois, vendo a fotografia, percebi que nos ombros do Toninho ele havia levantado o braço em um gesto muito bonito. É realmente nosso Arco do Triunfo da memória”, comentou.

José Arnaldo de Oliveira
Fotos: Fotógrafos PJ e Divulgação


Link original: https://jundiai.sp.gov.br/noticias/2015/03/16/ponte-torta-marca-memoria-viva-de-jundiai-diz-especialista/

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